TODA A MINHA GULA POR UM POETINHA - Por Júnia Brina
Vinicius foi mais, muito mais que um poeta camarada. Em si só ele era todo um poema. E não houve na nossa literatura poeta mais amoroso. Difícil dizer o contrário sendo mulher. E guloso. Um passeio pela sua obra é um verdadeiro encontro com o prazer. E chegou o momento de degustá-lo…
Assim define Vinícius de Moraes a casa materna, cheiros e sabores de uma cozinha que é o princípio da nossa gula- os aromas que determinam a nossa fome ficam gravados na memória, grudados ao céu da boca como um chiclete exposto ao sol.
“Pois a casa materna se divide em dois mundos: o térreo, onde se processa a vida presente, e o de cima, onde vive a memória. Embaixo há sempre coisas fabulosas na geladeira e no armário da copa: roquefort amassado, ovos frescos, mangas-espadas, untuosas compotas, bolos de chocolate, biscoitos de araruta - pois não há lugar mais propício do que a casa materna para uma boa ceia noturna.”
A casa materna- Vinícius de Moraes
E continua por toda a sua obra num eterno festival gastronômico, deixando aos amigos sábios conselhos:
“Tomai então uma ducha fria e almoçai boa comida roceira, bem calçada por pirão de milho. O milho era o sustentáculo das civilizações índias do Pacífico, e possuía status divino, não vos esqueçais! Não abuseis da carne de porco, nem dos ovos, nem das frituras, nem das massas. Mantende, se tiverdes mais de cinqüenta anos, uma dieta relativa durante a semana a fim de que vos possais esbaldar nos domingos com aveludadas e opulentas feijoadas e moquecas, rabadas, cozidos, peixadas à moda, vatapás e quantos.”
Amigos meus
E quando a saudade da terrinha aperta, nosso poetinha simplesmente “digere o Brasil”. Não há França que supere o doce sabor de uma baba-de-moça, baba que escorre em gozo pela boca, pela lembrança e pelas palavras do nosso poetinha:
“Sinto borboletas no estômago, deve ter sido o tutu com torresmo ontem misturado ao camarão à baiana de anteontem misturado à galinha ao molho-pardo de trasanteontem misturada aos quindins, papos-de-anjo, doces de coco do primeiro dia. Digiro o Brasil. Qual canard au sang, qual loup flambé au fenouil, qual paté Strasbourgeois, qual nada! A calda dourada da baba-de-moça infiltra-se entre as papilas, elas desmaiam de prazer, tudo deságua em lentas lavas untuosas num amoroso mar de suco gástrico...”
Minha terra tem palmeiras
E quem espera viver um grande amor, aquí deixa o nosso poeta alguns conselhos:
“Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...
Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs - comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica, e gostosa, farofinha, para o seu grande amor?”
Para viver um grande amor
Vinícius ainda deixou gravado uma mania bem brasileira- abacate com açúcar. Qual guacamole, qual saladinha que nada! Batido no liquidificador ou mesmo aberto ao meio, rociado com limão e deliciosamente recheado do mais puro açúcar:
“Abacate: Fiz certa vez para a minha série de poeminhas infantis, um sexteto sobre essa fruta de que gosto muito e que pertence, segundo me ensina o verbete de mestre Aurélio, à família das Lauráceas – o que não é dizer pouco. O poeminha é como segue, e faz grande sucesso entre crianças de mentalidade cropófila e adultos de mentalidade de criança, como é o caso de meu amigo e compadre Chico Buarque:
“A gente pega o abacate
Bate bem no batedor
Depois do bate-que-bate
Que é que parece? – Cocô.
Ô abacate biruta:
Tem mais caroço que fruta!”
Mas eis que, de repente, surgem-me, no ato de escrever, confusas, dolorosas recordações ligadas a essa palavra. Vejo-me menino, na casa de meus avós paternos, à rua General Severiano em Botafogo, debruçado à grande mesa da sala de jantar, apreciando meu avô comer com delícia o seu abacate no ritual gastronômico cotidiano. Era toda uma cerimônia, as refeições de meu avô Moraes. Brando déspota baiano, cheio de bossa e filáucia, colocava-se ele à cabeceira, o guardanapo atacado ao pescoço, à moda antiga, e sem dizer abacate atacava os próprios, depois de cortá-los em duas metades, que enchia de açúcar até às bordas. E era de vê-lo traçando-os a colheradas, devagar e sempre, até a última epiderme. Depois, limpava, com um rápido gesto de ida e volta, a boca e o bigode branquinho, suspirava fundo e partia para o seu quarto de leitura, onde ficava o lindo oratório de minha avó.”
E como vem aí o Natal, não vamos nos esquecer do peru, né?
“Fui eu próprio levar o peru – o meu primeiro! – para a sala, onde me vivaram devidamente. Vieram todos ver, entre goladas de champanha e interjeições de fome. Era, na realidade, um lindo bicho, e podia-se quase sentir sua maciez através da crosta dourada que o forno trabalha em tempo rigorosamente proporcional ao peso. Uma beleza! Eu não cabia em mim de orgulho: muito mais do que se se tratasse de um poema ou uma canção. Meu primeiro peru – poxa! – e ainda mais para gourmets da categoria de Jorgito Chaves, Celso de Souza e Silva, Gilberto Bandeira de Melo, David Silveira da Mota, Geraldo Silos e Almeida Sales...
Isso no meu apartamento em Paris, no Natal de 1963.”
Noite de Natal
Júnia Brina Marques, mineira, mãe e mulher. Formada em Letras pela UFMG e especializada em aulas de português para estrangeiros e traduções (espanhol-português). Há dez anos morando na Argentina, divide as seu tempo entre o trabalho e a cozinha, onde reúne família e amigos num eterno festival gastronômico. E é daquelas que ainda acredita que a sedução começa quando se prova o primeiro bocado… Para traduções consulte:
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